História de um povo negro

A história do Maracatu de Baque-virado envolve não só a história do ritmo e musicalidade da manifestação, mas sim, a história da nação negra e, paralelamente, a constituição do nosso país.

Essa história se inicia na colonização do território africano, em que grande parte do mesmo fora invadido e dominado pelos colonizadores europeus a partir do século 15, resultando no estabelecimento de colônias controladas por grandes potências da época como França, Portugal, Inglaterra e Espanha. As colônias portuguesas se estabeleceram principalmente nos territórios onde atualmente estão Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo-verde e região. (Conheça mais sobre a História da Colonização de África)

A expansão marítima européia continuou crescendo e dominando diversas regiões – com foco de expansão comercial – chegando à America do Sul um século mais tarde, no século XVI. Assim, os Portugueses ocupam, exploram e dominam o território Brasileiro, constituindo ali mais um pólo de empreendimento e comércio. A princípionão há interesse pelas terras Brasileiras – já que a única riqueza encontrada, de início, fora o pau-brasil. Porém, a partir do momento que passa-se a cultivar cana-de-açucar no território brasileiro, diversas mudanças socio-economicas e culturais passam a surgir e contribuir para a constituição do país. (Conheça mais sobre a Colonização do Brasil)

Dentre essas mudanças, para a história do Maracatu de Baque-virado a de maior importância é a utilização de mão-de-obra escrava no cultivo do açucar. Isto é, passou-se a comercializar mão-de-obra negra, constituindo então o tráfico negreiro e, dessa forma, completando o característico Comércio Triangular. Sequestrados, aprisionados e trazidos para o Brasil nos chamados navios negreiros, os nativos do continente africano eram submetidos a torturas diversas com o objetivo de impedir revoltas e manter a mão de obra escrava.  (Saiba mais em Escravidão e Tráfico de Escravos para o Brasil)

Começa aí a grande miscigenação que, na história do Brasil, gerou uma identidade nacional singular e um povo marcadamente mestiço na aparência e na cultura.

Os negros, trazidos para o Brasil como escravos, do século XVI até 1850, destinados à lavoura canavieira, à mineração e à lavoura cafeeira, pertenciam a dois grandes grupos: os Bantus e Oeste Africanos. Os primeiros, geralmente altos e de cultura mais elaborada, foram sobretudo para a Bahia. Os bantos, originários de Angola e Moçambique, predominaram na zona da mata nordestina, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. É impossível precisar o número de escravos trazidos durante o período do tráfico negreiro, do século XVI ao XIX, mas admite-se que foram de cinco a seis milhões. O negro africano contribuiu para o desenvolvimento populacional e econômico do Brasil e tornou-se, pela mestiçagem, parte inseparável de seu povo. Os africanos espalharam-se por todo o território brasileiro, em engenhos de açúcar, fazendas de criação, arraiais de mineração, sítios extrativos, plantações de algodão, fazendas de café e áreas urbanas. Sua presença projetou-se em toda a formação humana e cultural do Brasil com técnicas de trabalho, música e danças, práticas religiosas, alimentação e vestimentas.

Com relação aos grupos étnicos mais presentes, o termo Bantu significa, antes de mais nada, um grupo linguístico formado por muitos dialetos e línguas faladas principalmente na porção continental da África subssariana, como o Umbundu, o Quibundu, e o Quicongo. Esse jeito de falar, carregado e multiplicado por muitos grupos nômades, acabou adquirindo um uso que formou o que hoje muitos entendem como um grande tronco linguístico. Os Bantus trazidos para o Brasil vieram das regiões que atualmente são os países de AngolaRepública do CongoRepública Democrática do CongoMoçambique e, em menor escala, Tanzânia. Pertenciam a grupos étnicos que os traficantes dividiam em Cassangas, Benguelas, Cabindas, Dembos, Rebolo, AnjicoMacuas, Quiloas, etc. Constituíram a maior parte dos escravos levados para o Rio de Janeiro, Minas Gerais e para a zona da mata do Nordeste.

Já os Oeste-Africanos foram os primeiros escravos a serem levados para as Américas sendo chamados, nesta época, de negros da Guiné. Provinham de uma vasta região litorânea que ia desde o Senegal até à Nigéria, além do interior adjacente. Eram principalmente nativos das regiões que atualmente são os países de Costa do Marfim, Benim, Togo, Gana e Nigéria. A região do golfo de Benim foi um dos principais pontos de embarque de escravos, tanto que era conhecida como Costa dos Escravos. Os oeste-africanos constituíram a maior parte dos escravos levados para a Bahia. Pertenciam a diversos grupos étnicos que o tráfico negreiro dividia, principalmente, em:

O Maracatu surge (sem data precisa, porém com registros de 1711 conhecidos há pouco) como uma forma de homenagear a coroação do Rei do congo, pratica existente na África. Nessa fase, eram comuns no Recife as reclamações nos periódicos sobre a manifestação, vista pelos segmentos de elite como ‘antro de vadios e desordeiros’, perturbadora da paz e do sossego público.

Na virada do século XIX para o XX, espelhadas no liberalismo europeu e nas convicções “científicas” correntes na época, que acreditavam na inferioridade racial dos negros, as práticas culturais afro-descendentes passaram a sofrer intensa perseguição policial. As religiões foram criminalizadas, acusadas de práticas de curandeirismo/charlatanismo, sendo seus adeptos presos e denunciados por exercício ilegal da medicina. Os batuques, fossem eles de Xangô ou de Maracatu, invariavelmente recebiam inspeções da polícia, que prendiam seus praticantes e recolhiam os objetos de culto que encontravam nos terreiros.Desde os anos 1930, quando da divulgação das idéias modernistas e da realização do 1º Congresso Afro-Brasileiro, vimos ocorrer um movimento de transformação na visão da sociedade sobre os maracatus-nação. Na busca de símbolos que representassem o estado de Pernambuco e seu povo, os intelectuais procuram na cultura popular a fonte de inspiração. Manifestações antes vistas como atrasadas, resquícios de um passado colonial que a todo custo se desejava esconder, passam a ser revistas, assumindo novos espaços no contexto cultural do Estado.

Dentre as manifestações escolhidas como representativas da “pernambucanidade” está o maracatu-nação. Em um processo gradual e lento de legitimação, o maracatu é elevado de um lugar de discriminação e exclusão a um espaço que o reconhece enquanto marco da mais tradicional e autêntica cultura popular, emblema legitimo do Estado.

A prática adquiriu uma notoriedade que nunca havia conquistado antes, provavelmente resultado, entre outras coisas, da ação do Movimento Negro Unificado (MNU) junto a Nação Leão Coroado, (uma das nações mais tradicionais de Recife), do movimento Mangue Beat (que tem como principais expoentes Chico Science e o grupo Nação Zumbi, a Banda Mestre Ambrósio, entre outros), e do grupo Nação Pernambuco (uma de suas principais marcas foi ter separado a dimensão da música e da dança do Maracatu de sua dimensão religiosa).

Nesse contexto o Maracatu de Baque Virado saiu de seu palco principal que é a cidade de Recife e chegou a diversos outros lugares do país e do mundo. Atualmente existem grupos percussivos que trabalham com elementos da Cultura do Maracatu Nação em quase todos os estados brasileiros e em diversos países como Canadá, Inglaterra, França, Estados Unidos da América, Japão, Escócia, Alemanha, Espanha, entre outros.

Para saber mais:

Maracatu Nação

Maracatu.org – História

Maracatu.org – Breve História

Africa, Irmandades, Maracatu

Maracatu.org – Memória

Maracatu.org – Trabalhos Acadêmicos

Maracatus-Nação

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